O Urbanista e a Lombada

Em 1992, quando estava terminando o último mandato na Prefeitura, o Jaime Lerner recebeu a visita do Allan Jacobs.

O Jacobs, grande Planejador Urbano, está com 88 anos e atualmente é professor emérito Na Universidade da Califórnia e autor dos livros “The Boulevard Book”, “Great Streets”, e “Looking at Cities”.

Eles são amigos da vida toda e acho que se conheceram quando o Jaime foi Professor Visitante de Urbanismo no curso de pós-graduação da Universidade de Berkeley, Califórnia.

O Jacobs é um sujeito formidável, uma figura que cativa de pronto. Certamente um fator que contribuiu para que ele e o Jaime se tornassem excelentes amigos foi o bom humor de ambos. Sentar-se a mesa com os dois é um dos bons prazeres da vida.

Tive a sorte de estar com o Allan Jacobs algumas vezes aqui em Curitiba e uma em San Francisco, sempre com o Jaime. Na vinda em 1992 ele foi conosco a Paranaguá, para um compromisso político. Era a época das eleições municipais e o Jaime tinha que discursar no comício do Joaquim Vanhoni, candidato a Prefeito pelo PDT.

Conduzidos pelo Ceccon, motorista do Jaime por longos anos, lá fomos nós. O comício era à noite e saímos mais cedo para visitar o Dr. Vidal Vanhoni, pai do Joaquim (e do Ângelo). O Professor Vidal, como era conhecido, foi um homem notável; Deputado Estadual, Secretário de Educação e Professor da Universidade Federal. Uma pessoa de bem.

Após a visita fomos para o comício, na Vila Guarani. A atração da noite era a cantora Sula Miranda, que só iria se apresentar após terem falado todos os candidatos a vereadores, o Jaime e, é claro, o Joaquim Vanhoni, como era a praxe nos “showmícios”.

O “mestre de cerimônias” tentava manter o interesse do povo, que à exceção dos cabos eleitorais, só estava lá para assistir a apresentação da “Rainha dos Caminhoneiros”.

O slogan do candidato era “Paranaguá Já”, que o apresentador se esgoelava gritando sempre que podia, exercitando a criatividade possível nas circunstâncias:
– “Joaquim Vanhoni é…” – “Paranaguá já!” – respondiam.
– “A Sula Miranda vai cantar para…” – “Paranaguá já” – berravam.
– “O que nós queremos?” – “Paranaguá já!” – gritava a multidão.

No fundo do palco, O Allan Jacobs parecia não acreditar no que via. Jamais havia participado de algo minimamente parecido com aquilo, e o Jaime e eu ríamos com o êxtase dele. Era de fato um acontecimento inusitado.

Terminados os discursos, embarcamos no carro para voltar a Curitiba e, saindo da Vila Guarani, já no início da BR-277, pegamos um trecho com muitos redutores de velocidade, as nossas lombadas, até então desconhecidas pelo Jacobs. Algumas delas, mal sinalizadas, eram solenemente ignoradas pelo Ceccon. Depois de umas 3 ou 4 batidas de cabeça no teto, o Allan tomou para si a tarefa de dar o alerta.

Assim que avistava o perigo, gritava com o melhor sotaque norte-americano e misturando música e o “artefato” urbanístico ao qual havia sido dolorosamente apresentado minutos antes:
– “LAMBADA DJÁ.”

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