Onde Andará Aquele Médico de Antigamente?

O texto de hoje é de autoria de Tatiana Bruscky, uma médica de Recife (PE). A referência mais antiga que achei é de uma publicação de 2011.

O título original é “Onde Andará o Meu Doutor” e nele a autora/doutora, naturalmente com conhecimento de causa, comenta o fato de que de uma forma geral os médicos de hoje são muito diferentes dos generalistas de antigamente.

Costumo dizer que sou do tempo em que os médicos iam em casa, quando o paciente não conseguia sair, e literalmente sentavam na cama para examiná-lo e – muito importante – conversavam com ele e com o resto da família.

Não adianta apenas sermos saudosistas; os tempos mudaram, os médicos passaram a receber outra formação e apesar disso existem excelentes profissionais que mesmo sendo moços, exercem aquele tipo de medicina “antiga” e fazem tudo daquele mesmo jeito. O meu Clínico Geral, p.ex., é muito novo e faz exatamente isso. 

Claro que hoje os médicos têm ao seu dispor um arsenal de equipamentos que lhe permitem investigar e diagnosticar a doença com muito mais precisão. Como disse, vivemos uma outra época.

Vamos ao texto da Dra. Tatiana?

Onde andará o meu doutor?

Hoje acordei sentindo uma dorzinha,
aquela dor sem explicação,
e uma palpitação,
resolvi procurar um doutor,
fui divagando pelo caminho…
Lembrei daquele médico que me atendia vestido de branco
e que para mim tinha um pouco de pai, de amigo e de anjo…
O Meu Doutor que curava a minha dor,
não apenas a do meu corpo mas a da minha alma,
que me transmitia paz e calma!

Chegando à recepção do consultório,
fui atendida com uma pergunta:
QUAL O SEU PLANO?
O MEU PLANO?
Ah, o meu plano é viver mais e feliz!
é dar sorrisos, aquecer os que sentem frio
e preencher esse vazio que sinto agora!
Mas a resposta teria que ser outra… 

o MEU PLANO DE SAÚDE…
Apresentei o documento do dito cujo
já meio suada, tanto quanto o meu bolso, e aguardei…
Quando fui chamada corri apressada,
ia ser atendida pelo Doutor,
aquele que cura qualquer tipo de dor…
Entrei e o olhei, me surpreendi,
rosto trancado, triste e cansado…
será que ele estava adoentado?
É, quem sabe, talvez gripado
não tinha um semblante alegre,
provavelmente devido à febre…
Dei um sorriso meio de lado e um bom dia…
Sobre a mesa, à sua frente, um computador,
e no seu semblante a sua dor.
O que fizeram com o Doutor?

Quando ouvi a sua voz de repente:
O que a senhora sente?
Como eu gostaria de saber o que ELE estava sentindo…
Parecia mais doente do que eu, a paciente…
Eu? ah! sinto uma dorzinha na barriga e uma palpitação
e esperei a sua reação.
Vai me examinar, escutar a minha voz
auscultar o meu coração…
Para minha surpresa apenas me entregou uma requisição e disse:
peça autorização desses exames para conseguir a realização…
Quando li quase morri…

TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA,
RESSONÂNCIA MAGNÉTICA
e CINTILOGRAFIA!?

Ai, meu Deus! que agonia!
Eu só conhecia uma tal de abreugrafia…
Só sabia que ressonar era (dormir),
De magnético eu conhecia um olhar…
E cintilar só o das estrelas!
Estaria eu à beira da morte? de ir para o céu?
Iria morrer assim ao léu?
Naquele instante timidamente pensei em falar:
Terá o senhor uma amostra grátis
de calor humano para aquecer esse meu frio?
Que fazer com essa sensação de vazio?
e observe, Doutor,
o tal Pai da Medicina, o grego Hipócrates, acreditava que
A ARTE DA MEDICINA ESTAVA EM OBSERVAR.

Olhe para mim…
Bem verdade que o juramento dele está ultrapassado!
médico não é sacerdote…
Tem família e todos os problemas inerentes ao ser humano…
Mas, por favor, me olhe, ouça a minha história!
Preciso que o senhor me escute, ausculte
e examine!

Estou sentindo falta de dizer até aquele 33!
Não me abandone assim de uma vez!
Procure os sinais da minha doença e cultive a minha esperança!
Alimente a minha mente e o meu coração…
Me dê, ao menos, uma explicação! O senhor não se informou se eu ando descalça… ando sim!
gosto de pisar na areia e seguir em frente
deixando as minhas pegadas pelas estradas da vida,
estarei errada?
Ou estarei com o verme do amarelão?
Existirá umas gotinhas de solução?

Será que já existe vacina contra o tédio?
Ou não terá remédio?
Que falta o senhor me faz, meu antigo Doutor!
Cadê o Sccoth, aquele da Emulsão?
Que tinha um gosto horrível mas me deixava forte
que nem um Sansão!
E o Elixir? Paregórico e categórico,
E o chazinho de cidreira,
que me deixava a sorrir sem tonteiras?
Será que pensei asneiras?

Ah! meu querido e adoentado Doutor!
Sinto saudades
dos seus ouvidos para me escutar,
das suas mãos para me examinar,
do seu olhar compreensivo e amigo…
do seu pensar…
O seu sorriso que aliviava a minha dor…
Que me dava forças para lutar contra a doença…
e que estimulava a minha saúde e a minha crença…
Sairei daqui para um ataúde?
Preciso viver e ter saúde!
Por favor, me ajude!

Oh! meu Deus, cuide do meu médico e de mim,
caso contrário chegaremos ao fim…
Porque da consulta só restou uma requisição
digitada em um computador
e o olhar vago e cansado do Doutor!
Precisamos urgente dos nossos médicos amigos,
a medicina agoniza…
ouço até os seus gemidos…

Por favor, tragam de volta o meu Doutor!
Estamos todos doentes e sentindo dor…
E peço, para o ser humano, uma receita de calor,
e para o exercício da medicina….. uma prescrição de amor!

A Dra. Tatiana Bruscky tem um perfil no Facebook, que pode ser acessado aqui.

 

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