E Se a Internet Acabasse no Mundo Todo?

Pode parecer um cenário de terror – e talvez seja, realmente, mas esse é o tema de matéria do site Gizmodo Brasil.

A leitura exige tempo porque o artigo é longo, mas é interessante já que os especialistas consultados expõe suas opiniões com riqueza de detalhes:

O que aconteceria se a internet inteira desligasse de repente?

Um mundo em que a internet para repentinamente: certamente o especial para a TV já está em produção. Elenco famoso, visuais lindos, temas tediosamente óbvios. Uma perfeita subcelebridade percorrendo o país em busca de seus filhos rebeldes, ou indo atrás da seita maléfica que desligou a internet. Um trecho da zona rural com um sinal fraco, mas funcional, pessoas fazendo filas de quilômetros para verificar mensagens, revoltas estourando.

Felizmente, não precisamos esperar que esta história seja filmada e transmitida para ter uma idéia decente de como seria o apocalipse da internet: para esse Giz Pergunta, pedimos para vários especialistas imaginarem para nós o que aconteceria se a internet fosse desligada de repente.

De modo geral, a situação seria caótica, já que boa parte dos serviços depende da internet. No entanto, nem tudo seria ruim, pois a ocasião poderia ajudar as pessoas darem uma desacelerada. Abaixo, a opinião dos especialistas:

Francesca Musiani

Pesquisadora do Instituto de Ciências da Comunicação, Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica (ISCC-CNRS), Pesquisadora Associada do Centro de Sociologia da Inovação e Bolsista Global no Laboratório de Governança da Internet da Universidade Americana

No caso de um desligamento global da internet …
…Veículos autônomos param no lugar quase instantaneamente. Nas rodovias, os pedágios automáticos não permitem mais que nenhum veículo passe por eles, criando grandes congestionamentos.

…nas ruas, inúmeros transeuntes olham para seus dispositivos de comunicação vazios, testemunhando vários acidentes com drones postais ou dispositivos parecidos.

…vendedores e caixas totalmente automatizados, agora desconectados, levam ao desligamento rápido de supermercados e hipermercados que dependem exclusivamente deles. De qualquer forma, uma sociedade eletrônica sem dinheiro e baseada em moeda eletrônica não saberia agora como pagar pelas coisas.

…vastas regiões seriam privadas de eletricidade, pois os provedores não conseguem mais receber informações corretamente de seus sensores na rede elétrica e nas casas das pessoas, e não conseguem mais gerenciar adequadamente o suprimento de muitas áreas.

…Quase toda a produção industrial do mundo para. Os centros financeiros suspendem imediatamente todas as suas operações, cancelando de uma vez todos os pedidos em processamento.

E assim por diante…

Em que mundo tudo isso acontece? Em prol do “experimento mental”, respondi à pergunta pensando em um horizonte temporal de 2030 – que provavelmente será uma era da Internet das Coisas. Nesse cenário, quando ocorre um desligamento global da internet, interrompendo subitamente a esmagadora maioria das comunicações digitais, o que hoje consideramos ‘comunicações’ (escrever, conversar e conversar por meio de ferramentas digitais) é apenas uma pequena parte do problema.
Esse cenário pode não exatamente acontecer dessa maneira em 2030, é claro – é realmente provável que a internet seja muito mais difundida do que hoje, estendendo-se a muitos dos objetos de nossa vida cotidiana e às infraestruturas básicas que organizam nossas sociedades, mas muita da tecnologia mencionada pode muito bem não ser a que imaginamos e utilizamos nos dias atuais. No entanto, uma tendência parece clara: a extensão do alcance da infraestrutura da internet e os atores que a gerenciam estão em expansão.

Larry Page uma vez disse que algum dia “o Google construiria aeroportos e cidades”. Há muito tempo acreditamos que a influência dos atores digitais permanecerá confinada ao software, ao conteúdo e à informação desmaterializada. Começa a ficar claro que eles estão usando seu domínio nessas áreas para assumir posições em mercados não digitais, seja transporte, gerenciamento de infraestrutura ou em bancos. O Google ainda não está construindo cidades, mas, diretamente ou por meio de seus investimentos, já está desempenhando um papel de organizador de mobilidade, enquanto a IBM participa do gerenciamento da infraestrutura de abastecimento de água em várias cidades.

Com a conexão cada vez maior de infraestruturas e objetos, a organização dos fluxos físicos requer o controle dos fluxos de informações. É provável que um desligamento global da internet tenha consequências extremamente importantes para um mundo que ainda será físico, mas profundamente orientado e estruturado por informações e dados.

Dito isto, passando do experimento mental para o funcionamento real da internet hoje em dia, é preciso mencionar que é extremamente improvável que ocorra um desligamento global da internet. Embora seja relativamente fácil desligar partes específicas da internet por um período de tempo – como está bem documentado aqui- um evento global é, pelo menos até agora, quase impossível, devido à natureza distribuída e interconectada da internet, como Kevin Curran explica bem em sua contribuição para esta página.

“… quando ocorrer um desligamento global da internet, interrompendo subitamente a esmagadora maioria das comunicações digitais, o que hoje consideramos ‘comunicações’ vai ser apenas uma pequena parte do problema.”

William H. Dutton

Professor Emérito da Universidade do Sul da Califórnia e membro do Oxford Martin Institute e do Oxford Internet Institute, da Universidade de Oxford

Durante um dia, o impacto seria misto. Para gerentes e profissionais, como jornalistas e acadêmicos, seria como um dia de neve, proporcionando tempo para relaxar, talvez ler um livro. Para trabalhadores, como encanadores e carpinteiros, isso teria um impacto negativo em seus meios de subsistência, como a falta de novos empregos. Portanto, haveria efeitos diferentes nas diferentes classes sociais e econômicas das sociedades.

Se permanecer sem conexão por um longo período de tempo, o impacto seria prejudicial para todas as partes da sociedade, em todo o mundo. Mais da metade do mundo está online e, nos países de alta renda, a internet está cada vez mais incorporada aos hábitos de como as pessoas fazem o que fazem. Compras, serviços bancários, obtenção de informações, entretenimento – tudo online. Portanto, isso seria um choque para o tecido social e econômico da sociedade.

Repetidas vezes, os políticos querem ter acesso a um ‘interruptor’ conveniente para desligar a internet. Eles rapidamente percebem que isso teria impactos dramaticamente negativos, muito além dos danos que eles podem estar tentando resolver.

“Haveria efeitos diferentes nas diferentes classes sociais e econômicas das sociedades”.

Matthew Zook

Professor de Geografia da Universidade de Kentucky, cuja pesquisa se concentra em geoweb e novas mídias espaciais, big data, tecnologias de blockchain e muito mais.

Vou tomar algum tempo e ser aquela pessoa chata em um jantar que insistirá em conseguir mais detalhes sobre o porquê e como a internet caiu. Eu sei que isso contraria o espírito da pergunta, mas realmente importa em termos do que se desenrola. Uma falha em massa do serviço de nome de domínio (por exemplo, todos os arquivos de zona de todos os TLDs desaparecem ou estão corrompidos) seria muito diferente de algum tipo de ataque DDOS em massa ou algum tipo de falha física (um pequeno grupo com motosserras e retroescavadeiras começar a cortar os cabos em alguns locais cruciais é o meu cenário favorito). Mas você disse que desligou a internet inteira, então eu vou assumir que o protocolo TCP parou de funcionar de repente porque… bem, já está em meados dos seus 40 anos agora, talvez o protocolo IP esteja passando por uma fase difícil, acabou de se divorciar e está tirando algumas semanas para se encontrar (o que provavelmente significa andar pela dark web e ir atrás de elétrons jovens demais).

Ok, agora que terminei de antropomorfizar os protocolos básicos da internet, o que isso realmente significa? Tudo, muito provavelmente, mas como eu venho de uma formação em planejamento urbano, vou me concentrar em alguns pontos-chave prováveis.

Trabalho: Com a internet inativa, presumivelmente nenhum tipo de trabalho de conhecimento – ensino, advogados, seguros, design – será possível. Muito disso estaria relacionado à computação em nuvem – você não conseguiria ter acesso aos seus arquivos e, a menos que tivesse cópias locais ou cópias em papel – não conseguiria trabalhar. Além disso, os sistemas de agendamento e reunião estariam inoperantes.

Comunicações: Não tenho certeza se alguma coisa funcionaria. Não sei ao certo como algumas tecnologias usam o TCP/IP, mas o VOIP estaria desativado e suspeito que o SMS, o WhatsApp e o Telegram provavelmente dependem do TCP/IP em algum momento. Operadores de rádio amador virariam reis!

Banco e financeiro: BoomAbsolutamente nada. Os operadores financeiros estariam se sentindo muito presunçosos e, no bitcoin, as pessoas podem finalmente parar de falar sobre quão superior é uma blockchain descentralizada, mas dependente de TCP/IP. Não tenho certeza do que aconteceria com os caixas eletrônicos… o que seria uma questão fundamental.

Infraestrutura de transporte: Os carros devem funcionar (ou pelo menos meus carros funcionariam porque eu tenho os antigos), mas os semáforos, os pedágios eletrônicos etc. provavelmente falhariam de algumas maneiras interessantes. As companhias aéreas parariam de funcionar. O transporte por caminhão ainda pode funcionar, mas não tenho certeza das ferrovias ou portos. Todo o setor de logística estaria em frangalhos. Ainda teríamos toda a infraestrutura básica em funcionamento, mas quando a internet falha, os sistemas logísticos complexos que permitem que as cadeias de suprimento globais funcionem seriam basicamente interrompidas.

Outras infraestruturas: Redes elétricas, água, esgoto. Acho que os sistemas de esgoto ainda funcionariam (graças a Deus!), pois funcionam principalmente por gravidade, embora provavelmente existam algumas estações de monitoramento que falhariam. Eu ficaria mais preocupado com sistemas de controle em sistemas elétricos e de água. As coisas podem funcionar durante um tempo, mas quando ajustes precisam ser feitos, não tenho certeza do que aconteceria.

Então no final das contas temos boas notícias. Para a maioria das pessoas, não haveria muito motivo para ir para o trabalho ou para a escola, porque o trânsito será horrível e, assim que você chegar lá não haverá muito o que fazer. Agoras as más notícias. Você não será capaz de se comunicar, exceto pessoalmente (ou talvez pelo correio tradicional e rádio amador), todo o sistema bancário global não vai funcionar e eu realmente me preocupo com a logística. As fábricas e o processamento de alimentos não receberiam insumos; portanto, os empregos parariam, assim como as entregas de alimentos nos supermercados. Provavelmente é um bom momento para visitar o mercado dos agricultores locais (supondo que os agricultores consigam transportar seus produtos). E eletricidade e água podem ser raros. Melhor encher a banheira e comprar algumas baterias. E combustível… ainda que isso seja difícil.

“Ainda teríamos toda a infraestrutura básica em funcionamento, mas quando a internet falha, os sistemas logísticos complexos que permitem que as cadeias de suprimento globais funcionem seriam basicamente interrompidas”.

Alessandro Acquisti

Professor de Tecnologia da informação e políticas públicas da Universidade Carnegie Mellon

A curto prazo? Perplexidade, enquanto os efeitos desenvolvem até o completo caos, os quatro cavaleiros do apocalipse são avistados no horizonte.

A médio prazo: a vida continua, nós nos viramos; redescobrimos o tempo livre.

“Longo prazo: reversão ao normal; não há mais caos – nem muito tempo livre; espero que sejamos um pouco mais agradáveis uns com os outros.”

Mark Graham

Professor de Geografia da Internet, Instituto de Internet de Oxford

Se a internet inteira caísse, testemunharíamos um colapso econômico global quase imediato. A internet é o sistema nervoso da globalização contemporânea. Interações explicitamente digitais seriam as atividades que seriam obviamente afetadas de maneira mais direta: a maioria dos trabalhos que exigem computadores ou conectividade, redes bancárias e de pagamento e assim por diante. No entanto, mesmo partes da economia que inicialmente parecem relativamente desconectadas começaram a parar por causa do fato de que todas as sociedades contemporâneas dependem de cadeias de suprimentos de longa distância, e as cadeias de suprimentos de longa distância dependem da internet. Um agricultor de tomate, pescador ou operário de fábrica não terá muito o que fazer se as organizações para as quais trabalham e com quem negociarem não conseguirem se comunicar e receberem pagamentos. E se há duas coisas que garantem causar caos na economia contemporânea, é uma incapacidade de distribuição de alimentos e uma incapacidade de as pessoas acessarem dinheiro e a rede bancária. A desordem social gerada apenas por esses dois fatores se espalharia pelos cantos do mundo que não são caracterizados por sistemas de produção relativamente autárquicos. Como apenas as partes mais isoladas da economia global seriam relativamente afetadas, a única economia nacional a emergir relativamente ilesa poderia ser a Coréia do Norte (embora, mesmo lá, problemas possam surgir).

No entanto, no final, tenho certeza de que nossas sociedades são mais resistentes do que pensamos, e os sistemas de comunicação de backup usando rádio ou outros sistemas de comunicação que não sejam da internet ressurjam rapidamente para servir como a cola de comunicação que mantém sociedades e economias coesas. Mas qualquer perda abrupta da internet seria, sem dúvida, extremamente dolorosa a curto prazo.

“…se há duas coisas que garantem causar o caos na economia contemporânea, é uma incapacidade de distribuição de alimentos e uma incapacidade de as pessoas acessarem dinheiro e a rede bancária”.

Leonard Kleinrock

Professor de Ciência da Computação, UCLA, que desenvolveu a teoria das redes de pacotes, a tecnologia que sustenta a Internet

Minha suposição é que estamos caminhando para um mundo em que a internet será onipresente e se tornará invisível, pois desaparecerá na infraestrutura, resultando em uma sistema nervoso global disseminado. Isso está sendo conduzido pela internet das coisas, por exemplo.

No caso de um desligamento total da internet, a reação do consumidor resultará em uma corrida imediata atrás de baterias, alimentos, gasolina, água, bicicletas, etc. Vamos experimentar desordem, pânico, tumultos, crime e violência nos estágios iniciais. Haverá falhas colossais e colapso de redes elétricas, sistemas de companhias aéreas, comércio, sistemas bancários e financeiros, compras online, comunidades online, entretenimento online, troca de informações nos principais sistemas (por exemplo, saúde, jurídico, financeiro, governo, educação). Os veículos autônomos ficam com problemas e alguns sistemas de transporte (por exemplo, controles de tráfego) falham. Os sistemas de segurança física baseados na internet desaparecerão. Perderíamos o acesso rápido a enormes reservas de conhecimento e o arquivamento de informações diminuirá consideravelmente.

Se a eletricidade permanecer em certas regiões, o WiFi continuará funcionando localmente. Veríamos a implantação de redes sem fio ad-hoc. A televisão, a telefonia não-voip e o rádio prosperariam.

Mas vamos olhar para o outro lado desse apagão. Se olharmos para o lado positivo, haveria alguns efeitos benéficos na estrutura social do planeta. Aqui está uma lista de algumas das possibilidades:

  • As crianças provavelmente achariam isso libertador (ou devastador, ou ambos).
  • As pessoas leriam jornais, revistas, livros etc. em vez de jogar videogames irracionais em seus smartphones – apenas de uma olhada pelo corredor da maioria dos aeroportos!
  • As pessoas começariam a pensar novamente. As bibliotecas prosperariam.
  • As interações baseadas na internet (por exemplo, e-mail, textos, mídias sociais, twitter, etc.) desapareceriam e seriam substituídas por formas mais significativas e expressivas tradicionais por pensamento e cuidado – escrever, conversar, cantar, sair, etc.
  • A vida social mudaria. as pessoas realmente conversariam em vez de olhar para as telas. Elas interagiriam um com o outro enquanto se olhariam de verdade.
  • Segurança, invasão de privacidade, fraude, ransomware, phishing, e hackers seriam todos drasticamente reduzidos.
  • As pessoas se envolveriam em hobbies reais, jogos de tabuleiro em grupo, interação social real, com contato humano.
  • A vida real surgiria novamente em vez da vida virtual.
  • As crianças brincariam do lado de fora, tomariam ar fresco e experimentariam algo chamado natureza. Você realmente sairia na rua, vestido adequadamente e se envolveria com seus vizinhos e vizinhos.
  • As pessoas precisariam saber as coisas colocando realmente as informações em seus cérebros – e isso proporcionaria o benefício de poder pensar com essas informações e gerar novas idéias ao tomar banho, dirigir, etc.
  • A lealdade retornaria aos fornecedores locais, empresas gigantes da internet perderiam seu controle e monopólio sobre os consumidores.
  • O enorme efeito de megafone na internet desapareceria (e reduziria as notícias falsas, o discurso de ódio etc).
  • Dirigir voltaria a ser aprender a navegar com o seu cérebro. As selfies finalmente desapareceriam ou diminuiriam.Em resumo, o equilíbrio na vida retornaria. Agora, quão ruim isso seria? Mas com certeza retornaríamos ao mundo da internet assim que pudéssemos, certo? Que tal um meio termo equilibrado?

“Felizmente, as chances de um desligamento total da internet são realmente muito baixas”.

John D. Villasenor

Professor de Engenharia Elétrica e de Computação da UCLA

O impacto rapidamente se tornaria devastador. Quando muitos de nós pensam na internet, tendemos a pensar nela em termos de serviços voltados ao consumidor, como pesquisa, mídia social, email e leitura de notícias online. Mas a internet também alimenta grande parte da infraestrutura do mundo de hoje, incluindo o sistema financeiro, sistemas de transporte, cadeias de suprimentos para distribuição de alimentos e outros itens essenciais, sistemas de resposta a emergências etc. Sem esses sistemas, a sociedade como a conhecemos simplesmente não poderia funcionar.

“Felizmente, as chances de um desligamento total verdadeiramente mundial da internet são muito, muito baixas. O ecossistema da internet é amplamente distribuído, portanto, mesmo um ator malicioso altamente capaz dificilmente poderá causar um desligamento continuado nessa escala.”

Para ler a matéria no site original, clique aqui.

 

 

 

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *