Isaac e a Panificadora

Isaac andava cansado de ouvir a mulher reclamar de tudo e não ser reconhecido pelo que fazia.

Um dia, para espairecer um pouco, ele disse para Sara que ia dar uma saída:
“Vou até ali na esquina pegar pão na panificadora, e já volto.”

Sumiu.

Ficou dez anos desaparecido e um dia voltou.

Bateu na porta, Sara foi abrir, e lá estava ele.

Estava dez anos mais velho, claro, mas muito saudável, com a cara feliz, não lembrando em nada o homem triste de antes, mas era ele. Ficou ali, quieto, parado, com uma sacola na mão, sem dizer uma palavra, apenas com um sorriso enigmático na boca.

A esposa despejou a revolta pelos dez anos de solidão em cima dele:
“Seu safado, canalha! Então você diz que vai comprar pão na esquina e desaparece? Me abandona, abandona as crianças, fica dez anos sem dar notícias, me faz criar elas sozinha e ainda tem o desplante, a cara de pau, o acinte, a coragem de reaparecer deste jeito? Calhorda, você vai me pagar. Fique sabendo que você vai ouvir poucas e boas de mim e da minha mãe. Essa eu não vou te perdoar nunca. Nunca! Entre logo, vamos conversar, mas prepare-se para…”

Sem deixar que ela terminasse de falar, Isaac deu um tapa na testa e disse:
“Meu D-us do céu! Esqueci a manteiga, já volto!”

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