Meu encontro com o Zé Arigó

Lembrei dessa história há poucos dias numa conversa em família, quando comentei o que aconteceu quando fui com minha mãe para Congonhas do Campo. Estávamos embarcando em São Paulo. Acho que era o ano de 1963, quando minha mãe tinha 38 anos e eu 15, por aí.

Na Rodoviária fiquei na fila um pouco atrás da minha mãe, e a pessoa que conferia os bilhetes me pediu a autorização para que pudesse viajar desacompanhado.

Respondi que estava com minha mãe e chamei-a, mas imediatamente o funcionário me disse:
– “Tudo bem, pode subir.”

Minha mãe achou aquilo engraçado e perguntou o que havia acontecido. Ele respondeu:
– “O menino chamou a senhora de mãe com tanta naturalidade que percebi que realmente era seu filho.”

Bom, a história é esta:

No início da década de 60 visitei o Zé Arigó, apelido do médium José Pedro de Freitas, que vivia em Congonhas do Campo (MG) e dizia encarnar o espírito do médico alemão Dr. Adolpho Fritz.

Durante mais de 20 anos ele diagnosticou, deu receitas e até operou pessoas que vinham de todo o país e do exterior.
Fui lá com minha mãe para levar a Marlene Wagner, uma amiga da família que tinha uma doença muito séria. O Zé Arigó estava no auge da fama, e minha mãe se dispôs a levá-la para uma consulta.

Apesar disso a Marlene faleceu prematuramente, aos 20 anos, em 1964.

O contato com o Zé Arigó me impressionou muito. Viajamos durante a noite, chegamos bem cedo na casa onde ele atendia, e a fila já era enorme. Quando fomos atendidos, ele virou-se para um auxiliar e disse:
– “Fulano, traga a receita daquela menina de Curitiba”.

Nem todos os que estavam ali tinham problemas de saúde já que muitos representavam pessoas que não podiam se deslocar. Se não estou enganado, minha mãe pediu um remédio para ela mesma, cujos pés inchavam com frequência, e por orientação dela eu pedi ajuda para minha avó Sofia, que tinha diabete (o que não a impediu de viver quase até os 86).

Quando nos entregou as receitas, o Zé Arigó disse:
– “Comprem os remédios na farmácia daqui, porque onde moram não vão encontrar.”

Há registros das cirurgias em filmes, assim como relatos das curas, e esse é um campo onde as polêmicas são enormes. Sempre haverá espaço para a discussão sobre a veracidade delas, mas só mais tarde me dei conta de que havia contradições tanto no comentário sobre a origem da Marlene como na recomendação para a aquisição dos medicamentos.

Como as pessoas preenchiam uma ficha ao chegar, isso permitia que um auxiliar passasse as informações mais importantes. Já no caso dos remédios, talvez a orientação servisse para quem vinha de lugares ainda menores do que Congonhas do Campo, mas naturalmente não era o caso de Curitiba, e isso acabava parecendo um estímulo ao comércio local.

One thought on “Meu encontro com o Zé Arigó

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    Hélio Azevedo de Castro

    Nós (meus pais, minas irmãs e eu) também estivemos lá. Na verdade, o que aconteceu com o médium José Pedro de Freitas foi que ele achou que poderia ganhar dinheiro com o dom da mediunidade, e o irmão montou uma farmácia ao lado do Centro. Não deu outra coisa. Algum tempo depois o médium morreu tragicamente num acidente de automóvel.

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